Uma exegese do Salmo 23 à luz do hebraico e das palavras de Yeshua

O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei: Estudo bíblico e teológico sobre o Salmo 23, a ovelha perdida, a permanência no rebanho e o cuidado do Bom Pastor.

As fotos deste artigo foram tiradas exatamente quando vivenciei a experiência que compartilho neste estudo

Introdução — E se a ovelha também for o sujeito da promessa?

Há versículos bíblicos cuja familiaridade pode nos impedir de perceber a riqueza de suas palavras. O Salmo 23 é um deles. Tradicionalmente, lemos sua primeira declaração como uma promessa de provisão: o Senhor é meu Pastor, por isso nada me faltará. Essa tradução expressa uma verdade profundamente enraizada nas Escrituras, pois o Deus de Israel é aquele que alimenta, conduz, protege e sustenta seu povo. Entretanto, quando voltamos ao texto hebraico, encontramos uma possibilidade que merece atenção: e se a afirmação de Davi não estiver falando apenas daquilo que lhe faltará, mas também da possibilidade de ele próprio faltar?

O texto massorético de Salmo 23:1 apresenta a seguinte declaração:

יְהוָה רֹעִי לֹא אֶחְסָר

YHWH ro‘i lo eḥsar.

Tradução proposta: O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei.

A tradução tradicional, “O Senhor é meu Pastor; nada me faltará”, compreende a declaração como uma expressão de confiança na provisão divina. A leitura proposta neste estudo, por sua vez, considera a possibilidade de que o próprio salmista seja o sujeito daquilo que não faltará. Assim, a declaração pode ser compreendida não apenas como uma confissão de que o Pastor suprirá suas necessidades, mas também como uma afirmação de confiança na relação entre o Pastor e a ovelha que lhe pertence.

Essa tradução não deve ser apresentada como a única possível, mas como uma alternativa exegética fundamentada na morfologia verbal e que permite explorar uma dimensão importante da imagem pastoral. Em vez de restringir a declaração à ausência de necessidades materiais, ela coloca em evidência a relação entre o Pastor e a ovelha que lhe pertence: o Pastor cuida, conduz e guarda, enquanto a ovelha permanece sob seu cuidado.

O interesse dessa leitura aumenta quando acompanhamos o salmo até o final. O homem que começa declarando que o Senhor é seu Pastor termina afirmando que habitará na casa do Senhor por longos dias. Entre essas duas declarações encontramos pastagens, águas tranquilas, caminhos de justiça, um vale ameaçador, a presença do Pastor, uma mesa preparada e a bondade e a misericórdia que acompanham o salmista. Não estamos diante de imagens isoladas, mas de um poema que desenvolve a confiança de alguém cuja vida está nas mãos de Deus.

Quando colocamos essa progressão em diálogo com a ovelha perdida de Lucas 15 e com as palavras de Yeshua em João 10, surge uma pergunta ainda mais profunda: o que significa pertencer a um Pastor que não considera irrelevante a ausência de uma única ovelha e que afirma que ninguém pode arrebatá-la de sua mão?

É nessa convergência entre língua, poesia e teologia que se desenvolve a presente investigação.

A exegese do hebraico: quem é aquele que não faltará?

A análise começa com a expressão רֹעִי, ro‘i, “meu Pastor”. A palavra deriva da raiz רעה, relacionada a pastorear, apascentar e cuidar do rebanho. A forma contém o sufixo de primeira pessoa do singular, que estabelece uma relação pessoal: não é simplesmente “o Pastor”, mas “meu Pastor”. O salmista não descreve apenas uma função divina; ele confessa um vínculo de pertencimento.

Em seguida aparece לֹא, lo, a partícula hebraica de negação, equivalente a “não”. Finalmente encontramos אֶחְסָר, eḥsar, forma do verbo חסר, na conjugação Qal, no imperfeito, primeira pessoa comum do singular. Os léxicos hebraicos identificam nesse verbo os sentidos de faltar, carecer, estar em necessidade ou diminuir. A análise morfológica confirma que o sujeito verbal é “eu”, marcado na própria forma do verbo.

Esse último detalhe precisa ser entendido corretamente. No hebraico bíblico, os pronomes pessoais podem estar incorporados à forma verbal, sem que seja necessário escrever uma palavra independente correspondente a “eu”. Em אֶחְסָר, a primeira pessoa do singular está expressa pela morfologia do verbo. Portanto, não é necessário acrescentar o pronome אֲנִי, ani, “eu”, para identificar quem pratica a ação.

A observação sobre a primeira pessoa é, assim, correta: o verbo apresenta o salmista como sujeito gramatical. Mas devemos distinguir a identificação do sujeito da determinação do significado do verbo. O fato de אֶחְסָר poder ser traduzido como “eu faltarei” não resolve, sozinho, a pergunta sobre o que o salmista quer dizer ao afirmar que não faltará. A língua permite que uma pessoa diga “não faltarei”, mas precisamos verificar se o contexto descreve ausência de provisão, desaparecimento, morte ou outra forma de falta.

A tradução tradicional compreende a expressão como “não terei falta”, isto é, não carecerei daquilo de que necessito. A construção é natural, e o contexto pastoral favorece essa interpretação: o pastor conduz as ovelhas até a pastagem e a água de que precisam. A ausência de necessidade é, portanto, uma leitura coerente com a imagem.

Entretanto, o campo semântico de חסר não se limita a uma carência abstrata de bens. Em outras passagens da Bíblia Hebraica, a raiz aparece em contextos nos quais algo diminui, deixa de existir ou está ausente. O Brown–Driver–Briggs Hebrew and English Lexicon, uma das obras clássicas da lexicografia hebraica, registra essa variedade semântica. A análise de ocorrências como Gênesis 8:3-5 e 1 Reis 17:14-16 ajuda a compreender por que o verbo não deve ser reduzido mecanicamente a uma única equivalência portuguesa.

Isso abre espaço para considerar “não faltarei” como uma tradução que toma o próprio salmista como aquele cuja ausência está em questão. Nesse caso, a declaração não seria somente “não me faltará alimento”, mas “eu não faltarei”. A ovelha não aparece apenas como destinatária dos recursos providos pelo pastor; ela aparece como alguém cuja presença no rebanho tem importância.

A possibilidade não surgiu de uma associação devocional arbitrária. A discussão linguística sobre essa tradução já foi objeto de pesquisa acadêmica. Ainda assim, é preciso reconhecer que a possibilidade gramatical não estabelece, por si mesma, a intenção original do poeta. O argumento a favor da leitura proposta deve avançar para o contexto e para as relações entre as imagens do salmo.

É justamente aí que essa tradução ganha interesse: não porque elimina a leitura tradicional, mas porque permite perguntar se o poema pode ser ouvido também como uma declaração de permanência.

O imperfeito hebraico e a declaração de permanência

A forma אֶחְסָר pertence ao imperfeito do hebraico bíblico. Essa categoria verbal não corresponde mecanicamente ao futuro português em todos os contextos. Dependendo do verbo, da construção e do discurso, pode expressar ação futura, situação habitual, possibilidade ou uma perspectiva ainda em desenvolvimento. Por isso, a tradução “não faltarei” é natural em português, mas o valor exato da declaração deve ser determinado pela semântica de חסר e pelo contexto do salmo.

É importante esclarecer um aspecto da observação sobre a letra inicial. O א de אֶחְסָר funciona como prefixo morfológico que, nessa conjugação, identifica a primeira pessoa do singular. Não é, isoladamente, o pronome “eu”, mas participa da formação verbal que permite traduzir o verbo como “eu faltarei” ou “eu terei falta”. O pronome independente אֲנִי não aparece porque não é necessário para que o sujeito seja identificado.

A diferença é relevante: a gramática confirma que o salmista fala de si mesmo, mas o sentido de “faltar” ainda precisa ser interpretado. Se a falta é entendida como privação, a tradução tradicional é adequada. Se a construção é entendida como a declaração de que o próprio salmista não estará ausente, surge a leitura proposta neste estudo.

O estudo de Cas J. A. Vos, A Literary and Hymnological Glance at Psalm 23, publicado em 2009, ajuda a compreender a importância da estrutura literária do poema. Vos observa que o salmo articula diferentes perspectivas: o Senhor conduz o salmista; o salmista se dirige ao Senhor; e, ao final, volta a confessar sua confiança nele. O poema não é uma coleção de promessas independentes, mas uma composição na qual a relação entre Deus e o adorador atravessa todas as estrofes.

Essa estrutura oferece uma razão para não encerrar a interpretação de אֶחְסָר no primeiro significado que encontramos em um dicionário. A questão não é somente o que o verbo pode significar, mas como a declaração inicial participa do movimento do poema. Se o versículo 1 for lido como “O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei”, os versículos seguintes podem ser recebidos como a descrição do cuidado daquele a quem o salmista pertence, enquanto o final do salmo expressa sua esperança de permanecer na presença divina.

Não se deve transformar essa leitura em uma conclusão gramatical obrigatória. O que se pode afirmar é que ela constitui uma hipótese interpretativa coerente, cuja força está na combinação entre a possibilidade semântica do verbo e o desenvolvimento temático do salmo.

O Pastor no mundo bíblico: aquele que conduz, guarda e responde pela ovelha

Para compreender a profundidade dessa interpretação, é necessário recuperar o significado da imagem do pastor no ambiente bíblico. No antigo Oriente Próximo, pastorear não era apenas alimentar animais. O pastor precisava conduzir o rebanho, encontrar água, proteger os animais contra predadores, reconhecer os perigos do terreno e manter as ovelhas reunidas. Uma ovelha que desaparecesse poderia estar ferida, presa entre pedras, cercada por espinhos ou exposta a um animal selvagem.

Jørn Varhaug, em seu estudo sobre a metáfora do pastor como expressão da realeza, publicado em 2019, demonstra que essa imagem possuía uma dimensão política e régia no antigo Oriente Próximo. O governante era concebido como alguém responsável por proteger e dirigir aqueles que estavam sob sua autoridade. Na Bíblia Hebraica, essa metáfora também é aplicada ao próprio Deus, que exerce sobre Israel uma autoridade diferente da dos governantes negligentes.

Essa dimensão amplia o significado de Salmo 23. Ao declarar que YHWH é seu Pastor, o salmista não está descrevendo apenas uma experiência emocional de conforto. Ele reconhece a autoridade daquele que governa sua vida e assume a responsabilidade de conduzi-lo. Pertencer ao rebanho significa estar sob o cuidado e a direção do Pastor.

O Salmo 23:2 apresenta esse cuidado por meio de imagens concretas: pastos verdejantes e águas tranquilas. O descanso não significa que a ovelha deva produzir sua própria segurança. Ele se torna possível porque alguém a conduz a um lugar onde pode alimentar-se e recuperar as forças. Da mesma maneira, o Pastor conduz por veredas de justiça, restaurando a vida do salmista e orientando-o por caminhos que correspondem ao caráter do próprio Deus.

No versículo 4, entretanto, o cenário muda. O salmista atravessa o vale da sombra da morte. A presença do Pastor não elimina a existência do vale, nem significa que o caminho será sempre livre de ameaças. O que muda é a condição daquele que atravessa o perigo: ele não está abandonado. A vara e o cajado representam a autoridade e o cuidado de quem continua presente mesmo quando o terreno deixa de ser seguro.

Essa observação é essencial para a tese aqui desenvolvida. Se “não faltarei” for compreendido como uma declaração de permanência, isso não significará que a ovelha jamais enfrentará dificuldades ou que nunca se encontrará em uma situação de vulnerabilidade. Significará que sua esperança está no Pastor, que não deixa de cuidar dela quando o caminho se torna perigoso.

A segurança do salmo não está na força da ovelha, mas na fidelidade daquele que a conduz.

A continuidade do Salmo 23: do pertencimento à permanência na casa do Senhor

O argumento mais significativo em favor da leitura proposta surge quando percorremos o salmo inteiro, especialmente a relação entre o primeiro e o último versículo.

No início, o salmista declara: “O Senhor é meu Pastor”. No final, afirma que a bondade e a misericórdia o acompanharão todos os dias de sua vida e que habitará na casa do Senhor por longos dias. A imagem do Pastor, portanto, não termina no campo. O poema conduz o leitor da experiência de ser guiado à esperança de permanecer na presença divina.

O versículo 6 contém uma particularidade hebraica que merece atenção. A expressão וְשַׁבְתִּי, tradicionalmente traduzida nesse contexto como “e habitarei”, deriva da raiz שוב, relacionada a voltar ou retornar. A forma e a interpretação da expressão têm sido discutidas por comentaristas, e alguns estudos consideram a possibilidade de “voltarei à casa do Senhor”. O comentário de Andrew E. Arterbury e William H. Bellinger Jr., publicado na revista Biblica em 2005, reconsidera precisamente o cenário de Salmo 23:5-6, destacando a imagem de Deus como anfitrião e a hospitalidade no mundo antigo.

Essa discussão mostra que o final do salmo possui uma riqueza maior do que uma simples referência à duração da vida. A casa do Senhor representa o lugar de sua presença, de sua proteção e da comunhão com ele. Seja entendida como habitação contínua, seja como retorno à casa divina, a declaração final expressa a confiança de que a relação com o Senhor não se limita a um benefício momentâneo.

É nesse ponto que a leitura “O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei” encontra uma ressonância particularmente significativa. O salmista não começa falando de uma necessidade específica, nem termina enumerando os bens que recebeu. Ele começa com o Pastor e termina com a presença do Senhor. Entre esses dois pontos, encontra-se a vida inteira, com seus momentos de descanso, suas decisões, seus perigos e suas necessidades.

A hipótese interpretativa que proponho é que a declaração inicial pode ser lida em harmonia com esse movimento: aquele que pertence ao Pastor confia que não será reduzido à condição de uma ovelha esquecida ou abandonada. A permanência na casa do Senhor, no final do poema, torna-se o horizonte dessa confiança.

Isso não significa que o versículo 6 prove linguisticamente que אֶחְסָר significa “não me ausentarei do rebanho”. A conexão é literária e teológica, não uma equivalência gramatical direta. Entretanto, é uma conexão importante porque permite ler a declaração inicial à luz do destino expresso pelo próprio salmista: permanecer junto daquele que o guia.

O poema, assim, pode ser lido como uma trajetória de pertencimento, condução, proteção e permanência.

A ovelha perdida: quando a ausência de uma só importa

A imagem do Pastor que se preocupa com a ovelha que falta aparece de maneira explícita nas palavras de Yeshua em Lucas 15:3-7. Ele apresenta um homem que possui cem ovelhas e, ao perceber que uma delas se perdeu, deixa as noventa e nove e vai em busca daquela que desapareceu. Ao encontrá-la, coloca-a sobre os ombros, cheio de alegria, e retorna para casa.

A força da parábola está na maneira como o pastor reage à ausência de uma única ovelha. Para um observador distante, a perda de uma entre cem poderia parecer insignificante. Para aquele que conhece o rebanho, porém, aquela ovelha não é uma unidade substituível. Ela tem valor, e seu desaparecimento exige uma resposta.

A parábola não foi apresentada originalmente como uma explicação lexical de Salmo 23:1. Seu contexto imediato é a reação de Yeshua à crítica de que ele recebia pecadores e comia com eles. O pastor que busca a ovelha ilustra a iniciativa divina em favor daquele que está perdido e a alegria associada ao arrependimento. Essa finalidade precisa ser respeitada para que não transformemos uma parábola em uma prova linguística que ela não pretende oferecer.

Entretanto, a relação temática entre as duas passagens é evidente. Se o Salmo 23 puder ser traduzido como “O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei”, a declaração pode ser ouvida à luz da imagem daquele que não considera irrelevante a ausência de uma ovelha. A ovelha que falta não é esquecida pelo pastor, e o pastor não se contenta em simplesmente constatar sua ausência.

Existe aqui uma diferença importante entre o cuidado pastoral e uma concepção puramente utilitária do rebanho. A ovelha não tem valor apenas porque contribui para o tamanho do rebanho ou para a prosperidade do proprietário. Na parábola, a busca culmina em alegria. O resgate é apresentado como motivo de celebração, e não como um aborrecimento causado por um animal inconveniente.

Essa dimensão é fundamental para a vida espiritual. Pessoas podem se afastar por medo, sofrimento, culpa, confusão ou por circunstâncias que as deixam incapazes de retornar sozinhas. Outras podem estar presentes fisicamente em uma comunidade, mas emocional e espiritualmente isoladas. A imagem bíblica do pastor nos ensina a não confundir o silêncio de alguém com a ausência de necessidade, nem o afastamento com a perda de valor.

A ovelha perdida não consegue simplesmente transformar sua vulnerabilidade em força. Ela precisa ser encontrada. O pastor, por sua vez, precisa perceber que ela falta.

A parábola também coloca uma responsabilidade diante daqueles que cuidam de pessoas. Se a ovelha importa para o Pastor, não podemos tratar a recuperação de alguém como uma tarefa secundária. A comunidade que deseja refletir o caráter do Bom Pastor precisa aprender a procurar sem humilhar, corrigir sem destruir e receber sem transformar o retorno em ocasião de vergonha.

A leitura proposta para o Salmo 23 não substitui a mensagem original de Lucas 15. Ela encontra nessa parábola uma ressonância: o Deus que conduz o rebanho também se importa com aquele que desaparece dele.

“Ninguém as arrebatará da minha mão”: o Pastor que guarda suas ovelhas

A conexão com João 10:27-29 aprofunda ainda mais a investigação. Yeshua declara que suas ovelhas ouvem sua voz, que ele as conhece e que elas o seguem. Em seguida, afirma que lhes dá a vida eterna, que jamais perecerão e que ninguém as arrebatará de sua mão. Ele também declara que ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai.

A passagem não apresenta uma ovelha autossuficiente, capaz de garantir sozinha a própria segurança. A relação está fundamentada no conhecimento do Pastor, na voz que as ovelhas reconhecem, no seguimento e no poder daquele que as guarda.

O verbo traduzido por “arrebatar” possui a ideia de tomar à força ou arrancar. O ponto principal da declaração é que nenhum agente capaz de ameaçar o rebanho pode superar o poder do Pastor e do Pai. Yeshua não descreve uma segurança produzida pela capacidade natural da ovelha, mas uma segurança fundamentada na autoridade divina.

Essa declaração se relaciona de maneira profunda com a possibilidade de ler o Salmo 23:1 como “O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei”. O salmista confia naquele que o conduz; Yeshua declara que conhece suas ovelhas e que ninguém pode arrebatá-las de sua mão. Em ambos os casos, a segurança está vinculada ao Pastor.

Precisamos, contudo, manter a distinção entre as duas imagens. João 10 enfatiza a proteção contra aqueles que tentam arrebatar as ovelhas. Isso não equivale a afirmar que um cristão jamais poderá se afastar, que nenhuma pessoa poderá abandonar a comunidade ou que todos os problemas serão evitados. A passagem apresenta a autoridade e a fidelidade do Pastor, e não uma negação de toda possibilidade de afastamento humano.

Essa distinção, longe de enfraquecer a mensagem, permite compreendê-la com mais profundidade. A ovelha pode ser frágil, o vale pode ser perigoso e a jornada pode ser difícil, mas o Pastor não perde sua autoridade por causa da fragilidade da ovelha.

Em João 10:11, Yeshua declara que o Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas. O cuidado pastoral chega, assim, ao seu ponto mais elevado: não se trata apenas de fornecer alimento ou manter os animais reunidos, mas de assumir o custo da proteção do rebanho. O pastor fiel não abandona as ovelhas quando o perigo aparece.

A relação entre Salmo 23, Lucas 15 e João 10 permite construir uma síntese teológica: o Pastor conduz, procura, conhece e guarda. O salmo celebra a confiança daquele que se sabe cuidado; a parábola mostra a iniciativa em favor de quem se perdeu; e João apresenta a segurança das ovelhas sob a autoridade do Bom Pastor.

Não podemos afirmar que essas passagens tenham exatamente o mesmo propósito literário. Podemos, porém, reconhecer que elas pertencem a uma mesma tradição bíblica de cuidado pastoral e que, lidas em conjunto, iluminam a possibilidade de compreender “não faltarei” como uma declaração de pertencimento e permanência.

Ezequiel 34: quando o próprio Deus vai buscar as ovelhas

A imagem não começa com Yeshua. Ela está profundamente enraizada nos profetas de Israel, especialmente em Ezequiel 34.

Nesse capítulo, Deus denuncia os pastores que alimentam a si mesmos, mas negligenciam as ovelhas. Em vez de fortalecer as fracas, curar as feridas e procurar as que se dispersaram, os responsáveis pelo rebanho permitem que ele se torne vulnerável. O resultado é a dispersão: as ovelhas ficam expostas, sem direção e sem proteção.

A resposta divina é extraordinária. Em Ezequiel 34:11, o Senhor declara que ele mesmo procurará suas ovelhas e cuidará delas. No versículo 16, afirma que buscará a perdida, trará de volta a desgarrada, tratará a ferida e fortalecerá a enferma.

Essa passagem amplia nossa compreensão do que significa ter o Senhor como Pastor. Deus não se limita a esperar que a ovelha ferida encontre sozinha o caminho de volta. Ele toma a iniciativa de procurá-la e restaurá-la. Seu cuidado não é abstrato: alcança a ovelha que se perdeu, a que foi afastada, a que está quebrada e a que não possui forças para acompanhar o restante do rebanho.

O contexto de Ezequiel inclui a responsabilidade dos líderes de Israel e a dispersão do povo. A promessa divina não deve ser reduzida a uma experiência individual, pois ela se dirige também à restauração coletiva do rebanho de Deus. O Senhor denuncia os pastores infiéis e declara que assumirá pessoalmente o cuidado que eles negligenciaram.

Essa dimensão é especialmente importante para a leitura do Salmo 23. Se o Senhor é o Pastor, o salmista não está depositando sua confiança em um líder humano incapaz de responder por suas ovelhas. Ele confia no próprio Deus de Israel, aquele que julga os maus pastores e busca os que foram dispersos.

A ligação com a ovelha perdida de Lucas 15 torna-se ainda mais clara. Yeshua apresenta uma imagem que ressoa com a tradição profética: o pastor vai ao encontro daquela que se perdeu, e sua recuperação é motivo de alegria. João 10, por sua vez, apresenta Yeshua como o Bom Pastor que conhece suas ovelhas e dá a vida por elas.

A continuidade entre essas passagens não depende de afirmar que cada detalhe seja uma citação direta de Salmo 23. Ela se encontra na identidade da imagem pastoral: o Deus de Israel não é indiferente ao destino do rebanho. Ele responsabiliza os que o negligenciam, procura os dispersos e promete cuidar daqueles que estão feridos.

Sob essa luz, “não faltarei” pode ser ouvido como uma confissão de confiança naquele que não abandona sua responsabilidade pastoral. A ovelha não confia na própria capacidade de voltar, mas no caráter daquele que a busca.

Israel: a ovelha marcada, dispersa, mas não esquecida

A imagem pastoral possui também uma dimensão coletiva que não pode ser ignorada. Na Bíblia Hebraica, Israel é frequentemente apresentado como o rebanho do Senhor. Essa imagem não significa que o povo jamais enfrentará juízo, dispersão ou sofrimento. Significa que sua história é narrada em relação à aliança com o Deus que o chamou, disciplinou e prometeu restaurá-lo.

Ezequiel 34 é particularmente relevante porque associa o cuidado de Deus à dispersão de Israel e à promessa de reunir suas ovelhas. A restauração não é descrita como o resultado de uma capacidade autônoma do povo de reorganizar a própria vida, mas como uma ação do Senhor que procura, reúne e conduz seu rebanho.

Jeremias 32:37 também apresenta a promessa de reunir o povo dentre as terras para as quais havia sido disperso e fazê-lo voltar em segurança. O horizonte profético é o da restauração, da reunião e da renovação da relação entre Deus e seu povo.

Isso permite estabelecer uma aplicação teológica importante, desde que respeitemos o contexto de cada passagem. A história de Israel é marcada por feridas, dispersões e ameaças, mas os profetas não tratam essas experiências como prova de que Deus perdeu o interesse por seu povo. A disciplina divina e o sofrimento histórico não anulam automaticamente a promessa de restauração.

A imagem da ovelha marcada pode, assim, representar uma dimensão da história de Israel: um povo que carrega cicatrizes e cuja trajetória não pode ser compreendida sem considerar a aliança, o juízo e a esperança profética. A restauração, porém, pertence à ação de Deus, e não a uma interpretação que ignore as complexidades da história ou transforme cada acontecimento contemporâneo em cumprimento profético automático.

A aplicação individual e a coletiva se encontram na mesma convicção: aquele que se sabe pertencente ao rebanho não deve confundir feridas com abandono. O Pastor pode buscar, tratar e conduzir. A esperança bíblica não consiste em negar a realidade do sofrimento, mas em reconhecer que ele não precisa ser a palavra final sobre o destino do rebanho.

Para o leitor que vê no Salmo 23 uma declaração de permanência, Israel oferece uma dimensão adicional. O Pastor não cuida apenas de indivíduos isolados; ele também reúne e restaura um povo. A esperança da ovelha e a esperança do rebanho encontram-se no caráter daquele que prometeu cuidar deles.

Ben Shemen, 2004: a ovelha perdida e o chamado para participar do resgate

Em 2004, uma experiência vivida na floresta de Ben Shemen, na Judeia, tornou-se uma das ilustrações mais marcantes da reflexão que desenvolvi em meu livro Vivenciando as Páginas da Bíblia. Naquela manhã, saí com minha câmera, como costumava fazer, para percorrer as trilhas e observar a paisagem. O céu estava limpo, a manhã era serena e tudo parecia seguir normalmente. Eu estava em meu carro, com os vidros fechados, ouvindo louvores em alto volume, quando senti uma inquietação difícil de explicar. Não era um som que eu pudesse identificar com os ouvidos, mas uma sensação interior persistente, como se algo exigisse minha atenção, algo ou alguém estivesse olhando para mim.

Parei o veículo, abaixei o volume da música e olhei ao redor e não vi nada que explicasse aquela impressão, mesmo assim a inquietação continuava. Saí do carro e comecei a procurar o que seria, ouvi algo, caminhei devagar, até que encontrei uma ovelha sozinha, presa em um espinhal. Ela me fitava de uma maneira que jamais esqueci. Não fazia um grande alarde, mas sua condição falava por si: estava isolada, vulnerável e sem conseguir sair daquilo que a prendia.

Naquele instante, a pergunta que me veio à mente foi: “Será que o pastor está ouvindo?”

A pergunta pertencia à cena, mas também ultrapassava a cena. Quantas pessoas se encontram em uma situação semelhante, presas em circunstâncias que não conseguem vencer sozinhas, feridas por experiências que não sabem como superar e sem saber se alguém percebeu sua ausência? A ovelha não precisava de uma explicação sobre como deveria ter evitado os espinhos. Precisava de ajuda para sair deles.

A experiência me levou a compreender que observar a ovelha não seria suficiente. Era necessário agir, participar de seu resgate.

Comecei a procurar sinais do rebanho, seguindo os rastros e as fezes deixadas no caminho. Entrei novamente no carro e avancei por mais de um quilômetro, até encontrar o pastor, Haziz, um beduíno que eu já conhecia. Quando lhe contei sobre a ovelha, ele imediatamente perguntou como ela era, e eu respondi: como assim? Ele continuou: Ela tem pelo claro e um curativo na orelha. Confirmei as duas características, e ele reconheceu o animal.

Sua resposta ficou gravada em minha memória: Conheço esta ovelha, ela dá trabalho, já havia se perdido antes. Mas era dele, e ele cuidava dela.

Haziz não precisava que eu lhe provasse que a ovelha merecia ser resgatada. Ele a reconhecia pelas marcas e pelo comportamento. Sabia que era sua, mesmo que ela já tivesse se perdido anteriormente. Pediu que eu o levasse até ela e explicou que depois retornaria sozinho com o animal. Antes de partir, providenciou que seu filho cuidasse das outras ovelhas. Foi neste momento que entendi outra parábola de Yeshua, a ovelha perdida. Ele jamais deixaria o rebanho sozinho, sem proteção.

Aquela cena concreta passou a iluminar para mim as imagens das Escrituras. O pastor não confundiu o histórico de dificuldades da ovelha com a perda de seu valor. Não a considerou descartável porque já havia se perdido antes. Sua resposta não foi ignorar a dificuldade, mas assumir a responsabilidade de cuidar daquilo que lhe pertencia: “É minha. Eu cuido dela.”

Não pretendo transformar essa experiência pessoal em prova de uma doutrina ou afirmar que toda inquietação interior seja necessariamente uma mensagem divina. O significado espiritual que atribuí àquele encontro nasceu da reflexão sobre o que vi e da maneira como a cena me remeteu às Escrituras. A experiência me ensinou a prestar atenção à vulnerabilidade alheia e a considerar a possibilidade de que, em certas circunstâncias, somos chamados não apenas a observar, mas a agir.

Isaías 6:8 apresenta o profeta respondendo ao chamado divino com a declaração: “Eis-me aqui, envia-me a mim”. Essa resposta expressa uma disposição para participar da missão recebida. Na floresta de Ben Shemen, a experiência da ovelha me levou a refletir sobre essa mesma responsabilidade: não basta reconhecer que existe alguém em dificuldade; precisamos estar dispostos a fazer o que estiver ao nosso alcance para ajudá-lo.

A experiência não significa que o ser humano substitui o Pastor divino. Pelo contrário, o resgate da ovelha me ensinou a reconhecer os limites de meu papel e a importância de participar de uma ação que não começou em mim. Eu não era o proprietário daquele animal, nem poderia garantir sozinho sua recuperação. Minha parte foi perceber a situação, procurar o responsável e conduzi-lo até ela.

É nesse ponto que a história se relaciona com o Salmo 23. A ovelha que não consegue libertar-se do espinhal, precisa de um pastor que a reconheça e cuide dela. A ovelha que desaparece do rebanho precisa que sua ausência seja percebida. E aquele que se encontra diante dela pode ter a oportunidade de se tornar parte do caminho de volta.

A experiência de Ben Shemen não demonstra que אֶחְסָר deva necessariamente ser traduzido como “não faltarei”. Ela oferece, contudo, uma imagem concreta para compreender por que essa possibilidade me interessa: uma ovelha pode estar fisicamente ausente do rebanho sem deixar de pertencer ao pastor. Sua condição de perdida não apaga a relação que existe entre ela e aquele que a reconhece.

A pergunta que me acompanhou naquela manhã não foi apenas se a ovelha conseguiria sair do espinhal. Foi também se alguém perceberia que ela estava ali. Essa é uma das responsabilidades que a imagem bíblica do pastor coloca diante de nós.

O papel da ovelha perdida: uma lição para quem está ferido e para quem foi chamado a cuidar

Isaías 53:6 começa com uma declaração abrangente: todos nós, como ovelhas, andávamos desgarrados, cada um seguindo seu próprio caminho. O texto não descreve apenas um grupo específico de pessoas, mas apresenta a humanidade sob a imagem de um rebanho que se desviou. A ovelha perdida é, portanto, uma figura que nos convida a reconhecer nossa própria vulnerabilidade.

A primeira lição é que ninguém deve transformar sua condição de ferido em uma identidade definitiva. A ovelha presa nos espinhos não deixou de ser uma ovelha por estar em dificuldade. O fato de não conseguir retornar sozinha não anulou seu pertencimento. Da mesma forma, uma pessoa que atravessa uma crise, que se afastou de uma comunidade ou que enfrenta as consequências de escolhas equivocadas não deve ser tratada como se já não pudesse ser alcançada pela graça e pelo cuidado.

A segunda lição diz respeito ao pastor. Haziz reconheceu o animal pelas marcas e sabia que ele já havia se perdido antes. Isso não o levou a desistir de procurá-lo. Sua resposta não foi negar a dificuldade, mas assumir a responsabilidade de cuidar daquilo que lhe pertencia. Sua atitude nos ajuda a compreender a imagem do Bom Pastor: o cuidado verdadeiro não ignora as fragilidades, mas também não reduz a pessoa às suas quedas.

A terceira lição se dirige a quem percebe a ovelha perdida. Nem sempre somos chamados a resolver todas as dificuldades de alguém, mas podemos ser chamados a reconhecer a necessidade, oferecer ajuda, procurar quem tenha condições de agir e acompanhar a pessoa até que ela encontre segurança. A compaixão bíblica não é apenas um sentimento; ela pode exigir movimento, tempo e responsabilidade.

A quarta lição é que o resgate não deve se transformar em instrumento de humilhação. Em Lucas 15, o pastor retorna com alegria. O centro da narrativa não é a exposição pública da falha da ovelha, mas a celebração de sua recuperação. Uma comunidade que deseja refletir o coração de Deus precisa aprender a receber aqueles que retornam sem utilizar sua história como arma contra eles.

A quinta lição diz respeito ao próprio sentido de pertencimento. A ovelha não precisa provar que merece ser procurada antes de receber ajuda. Na parábola, a iniciativa do pastor é justamente o que torna possível o retorno. Isso não significa que o arrependimento seja irrelevante, pois ele ocupa lugar explícito na conclusão de Lucas 15. Significa que a busca do pastor não é apresentada como recompensa por uma ovelha que conseguiu resolver sua própria situação.

Essa perspectiva nos leva de volta à hipótese central do Salmo 23. Se a declaração “eu não faltarei” for entendida como uma expressão de confiança na permanência junto ao Pastor, não devemos interpretá-la como uma afirmação de que o salmista é incapaz de errar ou de se perder. Sua confiança repousa no caráter do Pastor, não na perfeição da ovelha.

A história de Ben Shemen me ensinou que a ovelha perdida tem um papel que ultrapassa sua própria recuperação: ela também pode despertar no observador a consciência de uma responsabilidade. O encontro com alguém vulnerável pode revelar se estamos dispostos a agir ou se preferimos continuar nosso caminho como se nada tivesse acontecido.

O resgate, assim, envolve a ovelha que precisa ser encontrada, o pastor que assume a responsabilidade e aquele que se dispõe a ajudar. A experiência não torna todos os papéis iguais, mas mostra como podem participar de um mesmo movimento de restauração.

Aplicações espirituais: permanecer, buscar e receber de volta

A primeira aplicação é dirigida à pessoa que se sente perdida. Se você se reconhece na ovelha presa entre os espinhos, a mensagem não é que deva fingir estar bem ou encontrar sozinho todas as respostas. A imagem bíblica convida a reconhecer a própria condição e a buscar o cuidado de Deus, sem desprezar a ajuda que outras pessoas podem oferecer. O Pastor que conhece suas ovelhas não precisa que elas escondam suas feridas para que sejam dignas de cuidado.

A segunda aplicação se dirige àquele que acredita estar firme no rebanho. A segurança não deve produzir indiferença diante de quem se encontra em dificuldade. Se o Pastor considera importante a ovelha que falta, o pertencimento ao rebanho precisa desenvolver em nós uma disposição para perceber o sofrimento alheio. A maturidade espiritual não consiste apenas em permanecer em segurança, mas também em aprender a cuidar de pessoas vulneráveis.

A terceira aplicação diz respeito à responsabilidade de líderes e comunidades. Ezequiel 34 denuncia os pastores que cuidam de si mesmos enquanto negligenciam o rebanho. A advertência permanece relevante: autoridade espiritual não deve ser utilizada para explorar, abandonar ou humilhar aqueles que estão sob cuidado. A imagem pastoral exige responsabilidade, proteção e disposição para buscar quem está ferido.

A quarta aplicação é a confiança no caráter de Deus. Salmo 23 não promete uma vida sem vales, mas apresenta a presença do Pastor durante a travessia. A ovelha pode enfrentar perigos reais sem que isso signifique que o Pastor deixou de acompanhá-la. João 10 acrescenta a afirmação de que ninguém pode arrebatar as ovelhas da mão de Yeshua e do Pai. Essa promessa não deve ser transformada em negação de toda dificuldade, mas recebida como uma declaração da autoridade e da fidelidade daquele que guarda seu rebanho.

Por fim, existe uma aplicação relacionada à esperança de permanência. O salmo começa com o Pastor e termina com a casa do Senhor. A vida de fé não se resume a receber respostas para necessidades imediatas; ela envolve uma relação que orienta o caminho e sustenta a esperança. A declaração “eu não faltarei”, entendida como uma possibilidade de leitura, pode expressar a confiança de que a vida do salmista está vinculada ao cuidado daquele que o conduz.

Essa esperança não dispensa a vigilância, a obediência ou a responsabilidade. Ela permite que essas atitudes sejam vividas sem a ilusão de que a segurança depende exclusivamente da força humana. A ovelha segue a voz do Pastor, e o Pastor permanece responsável por conduzi-la.

Conclusão — O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei

A investigação de Salmo 23:1 permite reconhecer duas leituras que não devem ser confundidas, mas que merecem ser consideradas com seriedade. A tradução tradicional, “nada me faltará”, expressa a confiança de que o Senhor supre as necessidades de quem está sob seus cuidados. A tradução proposta, “eu não faltarei”, desloca a atenção para a própria presença do salmista e permite compreender a declaração como uma expressão de confiança em sua permanência junto ao Pastor.

A morfologia hebraica confirma que אֶחְסָר está na primeira pessoa do singular. A raiz חסר possui um campo semântico que inclui faltar, carecer e diminuir. Isso torna a tradução proposta linguisticamente possível, mas não determina, por si só, que o salmista esteja afirmando que jamais se ausentará do rebanho. Essa conclusão depende da interpretação do contexto, e não apenas da forma verbal.

A continuidade do poema oferece uma base importante para essa interpretação. O salmista é conduzido a pastos verdejantes e águas tranquilas, atravessa o vale sob a presença do Pastor e termina declarando sua esperança de permanecer na casa do Senhor. A trajetória do salmo permite compreender o pertencimento e a permanência como temas que atravessam sua composição.

Lucas 15 amplia essa reflexão ao apresentar o pastor que procura a ovelha perdida e se alegra ao encontrá-la. João 10 apresenta Yeshua como o Bom Pastor que conhece suas ovelhas, cuja voz elas ouvem e que as guarda em sua mão. Ezequiel 34 revela a raiz profética dessa imagem, mostrando o próprio Deus assumindo a responsabilidade de buscar, reunir e restaurar as ovelhas que foram dispersas.

A experiência que vivi na floresta de Ben Shemen, em 2004, deu a essa reflexão uma dimensão pessoal. A ovelha presa no espinhal não podia libertar-se sozinha, mas também não havia deixado de pertencer ao pastor. Quando Haziz a reconheceu pelas marcas e afirmou que cuidava dela, compreendi de maneira concreta como o pertencimento pode permanecer mesmo quando a ovelha se encontra em uma situação de vulnerabilidade.

Não utilizo essa experiência como prova da tradução hebraica, mas como uma ilustração do significado espiritual que ela pode assumir. A ovelha perdida precisa ser encontrada, o pastor precisa assumir sua responsabilidade e aqueles que percebem a necessidade podem ser chamados a participar do resgate.

Por isso, a leitura “O Senhor é meu Pastor, e eu não faltarei” merece ser apresentada como uma proposta exegética e teológica, não como uma tradução indiscutível. Seu valor está em nos levar a considerar que o cuidado do Pastor envolve mais do que provisão: envolve condução, busca, proteção e a esperança de permanecer na presença daquele a quem pertencemos.

Naquela manhã de 2004, entre as árvores de Ben Shemen, aprendi que uma ovelha ferida não precisa ser esquecida porque se encontra distante do rebanho. A pergunta que surgiu diante dela continua relevante para nossa vida espiritual: quem percebe quando alguém está perdido, e quem está disposto a ajudar a trazê-lo de volta?

O Salmo 23 nos convida a confiar no Pastor durante todo o caminho. A parábola da ovelha perdida nos ensina que a ausência de uma só importa. João 10 nos recorda que o Bom Pastor conhece suas ovelhas e que ninguém pode arrebatá-las de sua mão. E o final do salmo nos conduz à esperança de permanecer na casa do Senhor.

Talvez seja essa a grande lição que emerge dessa leitura: a segurança da ovelha não está em nunca ter enfrentado os espinhos, mas em pertencer ao Pastor que a conduz, que não é indiferente quando ela se perde e que permanece digno de confiança durante toda a jornada.

O Senhor é meu Pastor. E, sob seu cuidado, posso declarar minha confiança de que não faltarei jamais em seu rebano.

Desde Sião, Miguel Nicolaevsky

Referências bibliográficas e para aprofundamento

Texto hebraico e morfologia: Biblia Hebraica Stuttgartensia; Brown, Driver e Briggs, A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. A análise morfológica de Salmo 23:1 pode ser consultada em Bible Hub — Psalm 23:1, Hebrew Text Analysis.

VOS, Cas J. A. “A Literary and Hymnological Glance at Psalm 23”. Tydskrif vir Geesteswetenskappe, 2009. Estudo sobre a estrutura literária, as imagens e a composição do salmo.

VARHAUG, Jørn. “The Decline of the Shepherd Metaphor as Royal Self-Expression”. Scandinavian Journal of the Old Testament, 33(1), 2019, p. 16–23. Estudo sobre a metáfora pastoral e a realeza no antigo Oriente Próximo.

ARTERBURY, Andrew E.; BELLINGER JR., William H. “‘Returning’ to the Hospitality of the Lord: A Reconsideration of Psalm 23,5–6”. Biblica, 86(3), 2005, p. 387–395. Consultar o registro acadêmico.

BROWNLEE, William H. “Ezekiel’s Poetic Indictment of the Shepherds”. Harvard Theological Review. Estudo sobre a denúncia dos maus pastores e a promessa de restauração de Ezequiel 34.

RIBEIRO, Osvaldo Luiz. “Sintaxe e semântica de חסר na Bíblia Hebraica: estudo para a tradução do Salmo 23”. Pistis & Praxis, 9(3), 2017. Pesquisa específica sobre a possibilidade de traduzir אֶחְסָר como “não faltarei”. Consultar o artigo.

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29 de julho de 2026/

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