Por muito tempo já fui questionado sobre uma das aparentes maiores contradições da Bíblia. Tanto no inglês quando no Português, as traduções tem causado tremenda dificuldade para aqueles que creem na infalibilidade da Palavra de Deus. Ainda mais quando os céticos nos mostram em nossa Bíblia o quanto ela aparentemente se contradiz. Felizmente, em minha tarefa de tradução literal e comentada da Palavra de Deus, direto do Hebraico para o Português, cheguei ao capítulo 6 de Gênesis e me deparei com este dilema. E pela primeira vez, me preocupei realmente em compreender um dos maiores dilemas da palavra de Deus. Será que o Eterno se arrepende ou os autores inspirados, queriam nos mostrar algo ainda mais profundo. Após uma pesquisa detalhada neste texto e em muitos outros, trago aqui o entendimento, que creio ser, inovador e conciliador com aquilo que cremos e costumamos afirmar a respeito do Eterno, mesmo sem compreender o que realmente significa. Diante tal descoberta, jamais poderia esconder este conhecimento, e é por isso que trago aqui de forma detalhada, como podemos chegar a uma conclusão bastante diferente de apenas “arrependeu-se”. Que este estudo possa trazer clareza e luz, para você, sua comunidade e seus queridos.
Index
ToggleO Verbo Hebraico נָחַם (Nāḥam): Exegese de Gênesis 6:6 e a Aparente Contradição com Números 23:19 e 1 Samuel 15:29
Introdução
Poucos textos do Tanakh provocaram tantas discussões teológicas quanto Gênesis 6:6:
“E o Senhor arrependeu-se de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.”
À primeira vista, esse texto parece contradizer declarações explícitas como:
“Deus não é homem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa.” (Nm 23:19)
e
“Também a Glória de Israel não mente nem se arrepende, porque não é homem para que se arrependa.” (1Sm 15:29)
A dificuldade, entretanto, nasce menos do texto hebraico e mais da maneira como o verbo נָחַם (nāḥam) foi traduzido para idiomas modernos.
Uma análise filológica, exegética e hermenêutica demonstra que o problema não está na Bíblia, mas na compreensão moderna do verbo “arrepender-se”, cuja carga semântica atual difere significativamente da ideia hebraica original.
1. ANÁLISE FILOLÓGICA DE NĀḤAM (נָחַם)
A raiz hebraica
O verbo
נָחַם
(nāḥam)
é um dos verbos mais ricos semanticamente do hebraico bíblico.
Segundo o Brown-Driver-Briggs (BDB), seus principais campos semânticos incluem:
- consolar
- confortar
- lamentar
- condoer-se
- sentir pesar
- compadecer-se
- mudar uma disposição diante de determinada situação
Observe que “mudar de opinião” não aparece como significado primário.
O verbo descreve muito mais uma resposta emocional profunda do que uma revisão intelectual causada por erro.
A ideia central
A maioria dos hebraístas observa que a raiz parece girar em torno de:
“uma profunda comoção interior provocada por uma nova realidade.”
Essa comoção pode produzir efeitos diferentes dependendo do contexto.
Por isso o verbo pode significar:
Quando aplicado ao homem
- arrepender-se
- mudar de ideia
- lamentar uma decisão
porque o ser humano é limitado.
Já quando aplicado a Deus,
o verbo tende a expressar:
- pesar
- compaixão
- dor
- lamento
- resposta relacional
sem implicar erro anterior.
Os principais usos no Tanakh(VT)
Nāḥam aparece aproximadamente 108 vezes.
Os sentidos distribuem-se em três grandes grupos.
1. Consolar
Exemplo:
Isaías 40:1
“Consolai, consolai o meu povo.”
Aqui aparece o Piel de nāḥam.
Não existe qualquer ideia de arrependimento.
2. Condoer-se
Exemplo:
Juízes 2:18
“…porque o Senhor se compadecia (nāḥam) deles.”
O verbo expressa misericórdia.
3. Lamentar profundamente
Exemplo:
Gênesis 6:6
A ideia é:
“Deus sentiu profunda dor.”
Nāḥam e Metanoia não são equivalentes
Aqui ocorre um erro comum.
O Novo Testamento utiliza principalmente o verbo grego:
μετανοέω (metanoeō)
de onde vem
μετάνοια (metanoia).
Metanoia significa literalmente:
mudança de mente
(meta + nous)
Envolve:
- revisão intelectual
- mudança moral
- conversão
- transformação da vontade
Já nāḥam pertence ao universo emocional e relacional.
Enquanto
Metanoia fala de transformação interior,
Nāḥam fala de reação afetiva.
São verbos completamente diferentes.
2. EXEGESE DE GÊNESIS 6:6
O texto hebraico diz:
Vayyinnāḥem YHWH
Literalmente:
“YHWH condoeu-se.”
O verbo está no Nifal, voz que frequentemente expressa um estado interno ou passivo-reflexivo.
Logo em seguida:
vayyit’atsev el libbô
Literalmente:
“e entristeceu-se em seu coração.”
Aqui aparece outro verbo:
עצב (‘atsav)
que significa:
- sofrer
- sentir dor
- angustiar-se
- afligir-se
O paralelismo é extremamente importante.
Temos dois verbos lado a lado.
Nāḥam
‘Atsav
O segundo explica o primeiro.
Ou seja,
o próprio contexto define o significado.
Não se trata de:
“Deus percebeu que errou.”
Mas de:
“Deus sofreu profundamente diante da corrupção humana.”
“Pesou-lhe em seu coração”
O hebraico usa:
o coração,
centro da vontade, emoção e relacionamento.
A expressão inteira constitui um exemplo clássico de:
Antropopatia
Não antropomorfismo.
Há diferença.
Antropomorfismo:
atribuir corpo a Deus.
Antropopatia:
atribuir emoções humanas para comunicar verdades espirituais.
A Bíblia frequentemente utiliza essa linguagem.
Não porque Deus possua emoções descontroladas,
mas porque deseja comunicar Sua relação real com Sua criação.
3. RESOLUÇÃO DA APARENTE CONTRADIÇÃO
Agora comparemos os textos.
Gênesis 6:6
Nāḥam descreve
uma resposta emocional diante do pecado.
Não há qualquer indicação de erro anterior.
Números 23:19
O hebraico diz:
“…nem filho do homem para que se arrependa.”
O contexto é extremamente importante.
Balaão está afirmando:
Deus
não muda Suas promessas,
como fazem os homens.
O contraste é entre:
Homem:
- mente
- volta atrás
- promete e não cumpre
Deus:
- permanece fiel
Nāḥam aqui significa:
voltar atrás por inconsistência.
1 Samuel 15
Curiosamente,
há algo fascinante.
No mesmo capítulo encontramos dois usos.
Verso 11
“Arrependo-me (nāḥam) de haver constituído Saul.”
Verso 29
“A Glória de Israel não se arrepende (nāḥam).”
Como resolver?
A resposta está no contexto.
No verso 11,
Deus lamenta moralmente
a corrupção de Saul.
No verso 29,
Deus afirma que
não revogará Seu decreto.
São sentidos distintos.
Mesmo verbo.
Campos semânticos diferentes.
Assim como em português:
“sentir”
pode significar:
sentir frio
ou
sentir saudade.
O contexto define.
Arrependimento humano
Implica:
- ignorância
- erro
- previsão equivocada
- mudança de plano
Condoer-se divino
Implica:
- perfeita presciência
- perfeita santidade
- perfeita justiça
- reação verdadeira diante do pecado
Deus nunca é surpreendido.
Mas relaciona-Se verdadeiramente com a história.
4. HISTÓRICO DAS TRADUÇÕES
Septuaginta (LXX)
A Septuaginta traduziu Gênesis 6:6 usando
ἐνεθυμήθη (enethymēthē) em algumas tradições textuais e, na forma mais amplamente atestada, ἐνεθυμήθη/διενοήθη não é uniforme; o texto recebido da LXX para Gênesis 6:6 traz ἐνεθυμήθη (“considerou”, “refletiu”) em alguns manuscritos, enquanto outras tradições empregam formas ligadas a μεταμέλομαι (metamelomai) (“lamentar”, “sentir pesar”). Essa diversidade mostra que os tradutores gregos perceberam a dificuldade de expressar nāḥam com um único verbo.
É significativo notar que a LXX não utiliza aqui o vocabulário clássico da conversão (μετανοέω / μετάνοια).
Vulgata
Jerônimo traduziu:
paenituit
“arrependeu-se”.
No latim clássico,
paenitet
também podia significar
lamentar,
sentir pesar,
não necessariamente admitir erro.
Com o passar dos séculos,
o termo foi associado à penitência cristã.
Foi aí que surgiu parte da confusão.
João Ferreira de Almeida
A Almeida herdou a tradição latina:
“Arrependeu-se o Senhor.”
No século XVII,
“arrepender”
ainda possuía um sentido muito mais amplo que atualmente.
Hoje,
porém,
o leitor automaticamente pensa em:
“Eu errei.”
Esse deslocamento semântico produz uma leitura equivocada.
Traduções modernas
Algumas procuram evitar esse problema.
Exemplos:
NVI
“O Senhor arrependeu-se…”
mantém a tradição.
Outras versões optam por:
- lamentou
- entristeceu-se
- sentiu pesar
que se aproximam mais do contexto.
O ruído teológico
Durante séculos,
a palavra
“arrepender”
mudou de significado.
Hoje ela pressupõe:
- erro anterior
- falta de conhecimento
- revisão de decisão
Nada disso existe em Gênesis 6.
O texto fala de dor,
não de ignorância.
5. CONCLUSÃO HERMENÊUTICA
Uma leitura integrada da filologia hebraica, da sintaxe e do contexto conduz a uma conclusão sólida: nāḥam, quando aplicado a Deus em Gênesis 6:6, não descreve uma mudança de propósito causada por erro ou desconhecimento, mas uma resposta relacional e moral diante da degradação da humanidade.
A sequência do versículo é decisiva. O narrador une וַיִּנָּחֶם (vayyinnāḥem) com וַיִּתְעַצֵּב אֶל־לִבּוֹ (vayyit’atsev el-libbô), mostrando que o primeiro verbo deve ser interpretado à luz do segundo. O texto não afirma que Deus “descobriu” que Sua criação fracassou; afirma que o pecado humano Lhe causou profunda dor.
Essa leitura preserva simultaneamente os principais atributos divinos:
1. Omnisciência
Deus jamais foi surpreendido pelo pecado humano. Desde a eternidade conhece todas as possibilidades e todos os acontecimentos (cf. Isaías 46:9–10). Seu nāḥam não resulta de informação nova, mas de Sua participação real na história da redenção.
2. Imutabilidade
A imutabilidade divina não significa ausência de relacionamento, mas constância de caráter. Deus permanece sempre santo, justo e misericordioso. O que muda é a condição moral do ser humano diante d’Ele. Assim, quando a humanidade passa da obediência para a corrupção, a resposta divina manifesta a mesma santidade imutável em circunstâncias diferentes.
3. Afeição divina e a questão da impassibilidade
A tradição cristã clássica frequentemente fala da impassibilidade divina para afirmar que Deus não é dominado por paixões involuntárias nem sofre alterações em Sua essência. Entretanto, as Escrituras apresentam Deus como Aquele que ama, se alegra, se ira e se entristece. Essas expressões não descrevem instabilidade emocional, mas revelam, por meio de linguagem antropopática, a realidade do relacionamento de Deus com Sua criação. Portanto, falar que Deus “se condoeu” ou “se entristeceu” comunica adequadamente Sua afeição santa sem sugerir limitação ou mudança ontológica.
Síntese final
A aparente contradição entre Gênesis 6:6 e Números 23:19 ou 1 Samuel 15:29 desaparece quando reconhecemos que o mesmo verbo pode assumir nuances distintas conforme o contexto.
- Em Gênesis 6:6, nāḥam descreve o pesar e a dor santa de Deus diante da corrupção humana.
- Em Números 23:19 e 1 Samuel 15:29, nāḥam refere-se ao tipo de “arrependimento” humano que decorre de erro, ignorância, instabilidade ou quebra de palavra — algo categoricamente negado a Deus.
Em outras palavras:
O homem arrepende-se porque não sabia. Deus condoi-se porque sempre soube e, justamente por conhecer plenamente, reage em perfeita santidade diante ao pecado.
Essa distinção elimina qualquer conflito entre os textos. A escolha de traduções como “condoeu-se”, “sentiu profundo pesar” ou “entristeceu-se” em Gênesis 6:6 expressa com maior fidelidade o campo semântico de נָחַם (nāḥam) nesse contexto específico e preserva, ao mesmo tempo, a coerência da doutrina bíblica da omnisciência, da imutabilidade e da fidelidade de Deus. Trata-se não de um Deus que muda Seus planos por equívoco, mas de um Deus eternamente santo que revela, em linguagem compreensível ao ser humano, Sua profunda dor moral diante da perversão de Sua criação.
“E condoeu-se YHWH por fazer o homem sobre a Terra, e entristeceu-se em seu coração.”
Gen. 6:6Diante da complexidade do Hebraico Bíblico, podemos ver a grandeza do nosso Deus, que escolheu este idioma para demonstrar o quanto ELE realmente ama a humanidade e deseja resgatar ela. A grande lição que podemos aplicar após este estudo, é a da gratidão, pois cada dia que recebemos dELE revela o seu amor grandioso, que deseja que todos venham ao arrependimento e ao conhecimento de que sim, podemos ter uma Vida Eterna. Conforme Davi o salmista declarou:
Porque vale mais um dia nos teus átrios do que mil. Preferiria estar à porta da casa do meu Deus, a habitar nas tendas dos ímpios. Salmos 84:10
Que o Eterno abençoe profundamente a sua vida.
Desde Sião, Miguel Nicolaevsky







